O cantor Cauby Peixoto, de 85 anos, morreu vítima de uma pneumonia no final da noite de domingo, em São Paulo, por volta das 23:50h. A informação foi confirmada pela assessoria de imprensa do artista. Ele estava internado desde segunda-feira no hospital Sancta Maggiore, na capital paulista. O velório será realizado na Assembleia Legislativa de São Paulo, a partir das 9h.
Um comunicado foi colocado no Facebook oficial do cantor: "Com muita dor e pesar informamos aos amigos e fãs que nosso ídolo Cauby Peixoto acaba de falecer às 23h50min do dia 15 de maio. Foi em paz e nos deixa com eterna saudades. Pra sempre Cauby!".
Em setembro do ano passado, o cantor teve uma apresentação cancelada no Teatro Rival, no Rio, por estar gripado. Em março de 2015, ele passou um período internado no hospital Santa Isabel, na Santa Casa de Misericórdia, na capital paulista, mas sua empresária, Nancy Lara, garantiu que ele estava apenas fazendo exames de rotina.
Em entrevista ao GLOBO, em 2001, Cauby Peixoto se definia como "o resultado fantástico da carreira sólida conciliada com a fama". A frase - também por sua formulação - sintetizava com enorme clareza a história do cantor, e o que ele representava. Estão ali a vaidade que não se confundia com antipatia, a certeza nítida de sua condição de estrela, a afirmação de um talento indubitável e o conhecimento profundo dos mecanismos do show business. Poucos na música brasileira souberam como Cauby - e nenhum antes dele - ocupar o lugar de ídolo popular.
Sua caminhada musical começou em Niterói, onde nasceu no dia 10 de fevereiro de 1931, numa família de instrumentistas. Seu pai era o violonista Cadete, seu tio era Romualdo Peixoto, famoso como o pianista Nonô. Mais tarde, seu primo (o cantor Ciro Monteiro) e seus irmãos (o pianista Moacyr Peixoto, o trompetista Arakén Peixoto e a cantora Andyara) também construíram carreira na área.
No colégio de padres salesianos, Cauby cantou no coro da igreja. Mas apenas na virada da década dos anos 1940 para os 1950 ele começaria a tentar a sorte como calouro em programas de rádio e a cantar como crooner em boates do Rio. Em 1951, gravou pela primeira vez - o disco tinha as canções "Saia branca" (samba) e "Ai, que carestia!" (marcha). No ano seguinte, foi para São Paulo, onde conheceu Di Veras, que se tornaria seu empresário e impulsionaria sua carreira.
? Meu empresário, Di Veras, inventou mentiras: que minha voz tinha seguro de três milhões, que eu era o recordista de cartas, o recordista de fotos. E eu ajudava: fazia o tipo modelo, gostosão ? lembrou Cauby, em 2001.
As cenas das roupas rasgadas pelas fãs - símbolo da idolatria a Cauby - também faziam parte do planejamento de Di Veras, que preparava paletós com costuras fracas, fáceis de serem rompidas. Falsos "noivados" também foram criados pelo empresário para fortalecer sua imagem de galã viril. Em paralelo, havia questionamentos sobre sua orientação sexual, da qual ele não falava nunca. Apenas em 2004, em seu primeiro show na boate gay Le Boy, ele tocou sutilmente no assunto, pouco antes de interpretar "People", quando disse: "Nós somos especiais".
"Blue gardênia", versão em português da música tema do filme homônimo, foi seu primeiro sucesso, em 1954. No mesmo ano, ele entrou para o elenco da Rádio Nacional e, em 1956, já era o cantor mais popular do Brasil - o mesmo ano em que gravou seu grande sucesso, "Conceição". Na época, Cauby tentou uma carreira internacional, com excursões aos Estados Unidos, onde gravou como Ron Coby. Não funcionou, apesar de ter gravado com Percy Faith, então um dos maestros mais importantes do país. Mais tarde, no fim da década, ganharia reportagens na imprensa americana, nas quais seria chamado de "Elvis Presley brasileiro". Em 1959, gravou "Maracangalha" em inglês ("I go"), durante uma temporada de mais de um ano por lá.
Sua carreira seguiu firme na década de 1960, apesar de sua geração ter perdido popularidade com a chegada da bossa nova e da geração dos festivais - a despeito de Cauby então ser ídolo e referência para artistas como Chico Buarque e Maria Bethânia. Nos anos 1970, foi perdendo força na mídia, apesar de continuar gravando (inclusive repertório de compositores jovens, o que de alguma forma sempre fez ao longo da carreira). Mas a volta de Cauby viria apenas em 1980, impulsionada por "Bastidores" (de Chico Buarque), que lançou numa interpretação que ligou a canção a ele de forma inquestionável. O disco tinha ainda "Cauby! Cauby!", faixa-título composta por Caetano Veloso, "Dona Culpa", de Jorge Ben, "Oficina", de Tom Jobim, e "Brigas de amor", de Roberto Carlos e Erasmo Carlos.
Ao longo dos anos 1980, 1990 e 2000, com maior ou menor frequência na mídia e nos estúdios, seguiu sendo reverenciado por sua importância. Ganhou prêmios, teve uma biografia lançada ("Bastidores", de Rodrigo Faour, na qual, segundo contou o autor, ele "só não revelou a idade nem deu os nomes das pessoas com quem foi para cama"), um musical sobre sua vida ("Cauby", no qual foi vivido por Diogo Vilela) e um documentário ("Cauby - Começaria tudo outra vez", de Nelson Hoineff). Seu disco "Minha serenata", de 2013, ganhou dois troféus no 24º Prêmio da Música Brasileira.
? Sou Cauby full time, mesmo em casa, quando estou de pijama rasgado e chinelo ? disse Cauby na mesma entrevista de 2001, em outra definição possível para o artista único que ele foi.
Cauby vivia em São Paulo e se apresentava nas noites de segunda-feira no Bar Brahma, um tradicional templo da boemia paulistana, há mais de dez anos.
No documentário de Nelson Hoineff, lançado em 2015, o cantor fala sobre sua sexualidade e outras questões. O úlitmo disco, "A bossa de Cauby", também de 2015, foi seu primeiro trabalho dedicado à bossa nova, com clássicos de Tom Jobim, Alf e outros.
No ano passado, Cauby iniciou a turnê do show "120 anos de música", ao lado de Angela Maria. Os dois se apresentaram no Teatro Municipal do Rio em 31 de março.
O Globo
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